quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Nossa arte


Não quero me acostumar a ser alí, a estar essa, a ter que não ter. Eu tenho medo do maduro, do normal, do necessário.
Eu me vejo no caminho do pessoal que a gente admira, mas eles só parecem felizes...
Eu tenho medo de não poder ser a criança do grito estridente, a puta do sexo ardente, a dona Maria do só quando for conveniente...
Eu quero mais pra que a gente continue sendo melhor. Mais bonito, mais diferente, mais a gente.
Entende que o fogo que já queimou foi tão certo em ser apagado. Mas não mude a água com açúcar com que apagava quando precisar dela de novo.
Sim, eu me entendo. Eu só não quero a vida alheia. Eu quero a nossa.

Vivamos
Que vontade de ficar sozinha.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Nas letras


Quando eu era menor, e quando eu era sem alguém, passava por instantes como esse. Eram momentos bobos, em que eu simplesmente precisava de um banho com a cabeça encostada na parede, só sentindo a água cair, pra poder pensar. E esses momentos eram os que rendiam melhores estratégias sobre a vida, sobre a minha vida, sobre mim.
Hoje, sem querer impor um instante de volta, cheguei até ele. E percebi que o corpo que recebia a água era o mesmo ou melhor que o de anos atrás. Mas que esse corpo mudava quando eu mais deveria olhar pra ele. Quando eu mais deveria adorá-lo. Parece-me que quanto mais havia a incerteza de tudo, mais certa de tudo eu ficava. É errado! Porque se fosse bom, eu aceitaria, mas não é. Parece-me que quando olho pra frente e não vejo nada, permito-me ver o que quiser. E quase sempre são mentiras, que sei serem assim, mas que tem uma força poderosa.
O que quero dizer a mim mesma, é que se há uma hora em que acreditar, então é essa! Porque não poderia ser a outra, em que nada de verdade existia, em que eram só meus pensamentos e minha boa auto-estima falando. Porque antes tudo poderia ser, mas não era, né? Havia, de fato, a imensa gama de possibilidades, mas se nunca chegaram até mim, não deveriam ser.
E quem deveria ser? Como eu posso negar que o melhor aconteceu? Que a vida que se pôs e que está ficando não é a melhor das opções? Tão boa e tão real que eu não poderia ter inventado.
É certo que quando nunca houve coisa alguma eu fui inteira e completa. E é certo que passo a ver hoje os fragmentos das certezas que tive um dia, pra poder, agora, endireitar os passos.

Então vivamos!

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Não vão se largar


Mas ninguém sabe o que eu estou sentindo.
Mas hoje nem eu sei que o estou sentindo. Só há uma voz falando estranho, um sem resposta gritando insano e um certo nó me amarrando em pranto.

Como eu disse, é implacável. Não espera, não avisa, não prepara. Vem e quer de volta.
Eu dei. Mas que saudade dos braços dele...

Ele sempre me ajuda. É incrível como as mãos sempre se encaixam.

E talvez eu chore de susto então... é como se eu tivesse perdido, há muito tempo, e tanto que nem ele se lembra. Mas é como se eu vivesse agora toda morte que plantei antes. E eu não a colhi, por Deus, eu não colhi. Eu devo agradecer a ele, ao trevo, ao norte. Eu devo festejar de qualquer jeito a forma que se fez inteira, a que eu consegui encontrar. A que eu nunca parei de procurar.

E o que ofereço é minha vida. Do jeito que precisar que ela seja.

Obrigada e te amo, te amo, te amo...

quinta-feira, 11 de novembro de 2010


Ah, eu não nasci pra trabalhar tanto! Não aguento

domingo, 3 de outubro de 2010

Ponto

Se existe um momento da vida em que ela vira um furacão e te põe no olho, eu estou num desse. E o olho não é exatamente o momento do completo desespero, em que você apenas faz um monte de merda, sabe que está fazendo, mas não pode responder porquê, onde errou e, muitíssimo menos, como poderia ter evitado. Uma vez no olho, você já avançou de fase e consegue saber que tipo de estímulo gera a merda, quais os estopins, como seu padrão dirá para reagir e, uma vez semi-consciente, sabe que é preciso pisar no freio pra não aumentar o problema.
É quando você se choca consigo mesmo e já tem uma idéia do tipo de monstro que é. Claro, porque todos somos, mas mostramos isso em cenas diferentes. E é preciso matar partes dele pra manter outras relações vivendo sadiamente.
Eu recentemente fui me pondo em frente a mim mesma, me envergonhando de mim mesma, e tentando transformar isso em azeite extra virgem. Sim, pegar o óleo preto e purificar. Purificar o poder de se perdoar sem auto-piedade. Entender que o monstro muitos ajudaram a formar, mas só você pode consertar, afinal, você consentiu por várias vezes pra que ele chegasse aqui tão fortalecido.

Estou aprendendo que perdoar alguém só é possível quando você já aprendeu a se perdoar por ser quem é. E quando aprendeu a não se conformar em ser ruim nem se engrandecer por ser bom, e principalmente não ser indiferente às conclusões que tira sobre si mesmo.

Eu não consigo mais fazer das palavras um ponto final na construção do meu crescimento. Já consegui e espero voltar a conseguir. Mas nem de longe isso me deixa amortecida. Acho que os pontos agora estão sendo colocados lá fora, na vida real.

Vivamos.
“Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade.
Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. [...] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei.”

Clarice Lispector